Carnavalesca

Quem é esta mulher
Que chega aqui taciturna
Senta em sua cadeira
Faz o seu trabalho e vai embora?
Por quem sorri enigmaticamente
Quando recebe mensagem?
Onde mora?
Por que se veste de maneira tão sóbria?
Por que tão contida?
Qual será o seu filme predileto?
Qual será a sua crença?
Qual será o seu livro de cabeceira?
Com quem será que sonha?
Sonha?

Nas tarde de fevereiro
Dizem que se esquece de tudo
E brinca carnaval

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Daniel

Quando vejo seu olhar-sorriso
Quando sinto o seu mau cheiro forte
Quando você passa com os cachos desgrenhados

Sinto-me “brisado”
Sinto-me inebriado
Sinto-me enrijecido

Vem ser meu rock and roll
Deixa eu lhe mostrar minha bossa nova

Justos na esbórnia
Caminharemos sobre Botafogo
Voaremos, meu anjo,
Sobre a Guanabara

Seremos um grande vulcão
A expurgar lava
Sobre os caretas

E se algum dia nos afastarmos
Por favor, não me esqueça
Até o dia em que eu não mais
Lembrar de você

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Visita da Velha Senhora

Abro a janela
Contemplo o dia
E agradeço a Deus
Me entrego a Deus
Peço a Deus

Deus?
Cadê Deus?
Onde Deus?
Aonde Deus?

Deus, por que não responde?

Estou com raiva de Deus
Eu não entendo como pode
Deixar uns sofrerem
Enquanto outros vivem felizes
Realizados

Muitos têm explicações
Extrassensoriais
Metafísicas

Eu quero simplesmente viver
Mas as janelas estão fechadas
Estou gradeado
Na solitária de uma clínica psiquiátrica

O psiquiatra não tem tempo
Não está disponível
É médico
Ocupado
Sou mais um número
E pago caro para isso

Os remédios e seus efeitos colaterais
São bombas a explodirem
Internamente

Aceleram
Desaceleram
Engordam
Em excesso dopam

Lembro do meu cão e o invejo
Ele não sabe que vai morrer
Ele não precisa provar nada a si mesmo
A ninguém
É bem pequeno
Mas late alto
E pensa que assusta

O que sinto será
Inveja?
Raiva congelada?
Fuga?

Nada me agrada

Flerte
Sexo
Álcool
Incenso
Pornografia
Amigos

A velha Senhora é cruel
Ela toma laça
Ela prende
Ela mata

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Brasil 2017

Cassetete cega
Manifestante que
Reivindicava os nossos direitos
Em Brasília

Sangue escorre da cabeça
De travesti apedrejada
Por cinco adolescentes

Prédio é demolido
Com moradores dentro
Após desastrosa “limpeza”
Na “cracolândia” de São Paulo

Uns à esquerda
Uns à direita
Uns ao centro
Muitos sem direção
País da corrupção

A classe média quer jogar
Uma bomba sobre Brasília
Mas se assusta com
Banheiros incendiados

Quem são os vândalos?

Que confusão no Senado!

Eles nos representam?

Que porradaria na Câmara!

Lama no Estado
Lama no Congresso
Lama no Palácio da Alvorada

Judiciário lento e conivente
Foda-se a vida da gente

País da desigualdade
País da barbárie

Cansei disso tudo
Vou fumar o baseado que comprei
Com o carinha do morro
E sonhar com uma vida melhor nos EUA

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Clamor

Carne de preto
Carne crua
Carne que eu desejo
Sangue escorrendo de minha boca

Boca de branco
Querendo carne negra
A mais dura
A mais surrada

Mas o dia vem e atropela tudo
O desejo
Os sonhos
Até mesmo o pesadelo que mora em mim

É na madrugada quente
Que não ouço os meus gritos
Que o desejo latente
Solta aos pulos
Para o infinito

É na madrugada
Quente e profana
Que tu ardentemente
Adormeces
Negando ao que te ama

Negação da branca boca
A clamar-te dura carne escura
E negando-me alegremente
No dia seguinte tu ensolaras
E eu porco adormeço sem esteio
À beira do nada
Esperando coisa alguma

Essa gente que ri despercebida
Que em nome do Senhor
Exclui, segrega e discrimina
Caminha junto a ti
Pela família, para a família
Pai, mãe, filhos e alvorada

Ao anoitecer todos adormecem
E descansam em paz
Seja nos barracos das favelas
Ou nas casas dos Jardins

E tu pululas em mim
À distância de uma renúncia
Envergonhada, enxovalhada
E dura de sentir

Pedra na boca
Mordaça
Ferindo meus lábios
Que são só dores
E enraivecidos já não clamam por ti

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O sol tatua em tua pele
O preconceito

A nuvem gris anuncia
Novo conceito

Talvez o OVNI venha
Trazer-me boa nova

De um planeta distante
Novas galáxias

Talvez o leite apodreça
E mate o gato da vizinha

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Conversa de carnaval

Está sambando ou viajando?
Viajando.
Aonde?
Nas palavras.

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Batucada

Não bobeie
Creia
No rubro batuque
Aceite
Que noite desnude
Permeie
As horas insalubres
Agite
Que a vida urge

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Clínica 2

Casa feia
Casa sombria
Casa vazia
Fecharam uma escola Mataram as crianças
Abriram uma clínica

As salas de aula agora
São Espaço de Pensar
Espaço de Reflexão
Espaço de Saúde

Tudo cheira a defunto
Tudo frio e impessoal
Tudo é mecânico e nada faz sentido

Tem um valão a céu aberto
É o seu cérebro
Tem uma cova profunda
Corvos sobrevoam este habitat horrendo

Eu tenho medo dos fantasmas dessas crianças
Um medo paralisante e atordoador
Minha cabeça gira, feito um bêbado tentando equilibrar-se

Dói a incerteza da libertação desses espíritos infantis?
Ou será que dói vislumbrar
A incapacidade de sentir a vida em toda a sua plenitude dentro de mim?

Esta gente endomingada e apoucada causa-me tédio
Então qual será o remédio?

Será talvez a noite e toda a sua frescura de neons, plumas e paetês?
Uma agonia travestida em glamour

Será um beijo na boca do rapaz que massageou meu corpo nu em troca de 50 Reais?
Uma humilhação travestida de virilidade

Meus dedos estão cansados
Minhas mãos tremem
Estou trancado em um cubículo que chamam de quarto
Lá fora o som da TV me irrita
A minha visão é turva
De uma vida carcomida, capenga
Bate em mim um coração retalhado
Não por amores malfadados
Mas pela confusão mental que me causam estes espíritos infantis

Não sou esquizoide
Não sou depressivo
Não sou bipolar
Sou atormentado por estes espíritos infantis

Aqui era uma escola
Derrubaram a escola
Só restam os espíritos das crianças
Se emporcalhando num lamaçal imundo

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Após o Carnaval

Mais um pouco de café e eu me mato
Impraticável é a tua ausência
Não percebes o eu quero: colo

Deveria estar eu acostumado
Ao teu desprezo
Mas dependência emocional me acomete

Até que chega fevereiro
O carnaval cimenta os buracos
De minha psique,
Colore aos meus impulsos

Com o passar dos meses os tons desbotam
E no inverno
Em meio à canecas de café que me deixam convulso
Aborrecido me pergunto por que por ti eu soluço

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